sábado, 16 de abril de 2016

Transexual madura...

Acho que esse tema não é  "mimimi", é só mesmo uma reflexão, ou um desabafo puro mesmo. Na verdade me orgulho de ter enfrentado a sociedade numa época em que as coisas eram bem mais difíceis do que são hoje para transexuais. Mas ao mesmo tempo teria gostado bastante de ter nascido mais tarde um pouco, uns vinte anos depois do que nasci. Não teria sido fácil, porque até hoje ainda não é para as pessoas transexuais, mas gostaria de passar a juventude numa época com maior visibilidade trans.

Lembro de quando era criança, existia uma transgênero na rua onde morava. Ela era totalmente impedida de sair de dia, porque as crianças jogavam pedras nela, era um horror, e por talvez intuir o que eu passaria, achava aquilo errado. Os pais ficavam no portão de casa, rindo, sem fazer nada. A trans ficava  bastante constrangida e é óbvio que se sentia magoada, humilhada e etc. Aquilo era normal na década de 70, geralmente agiam assim sem se contestar.

Cresci e me tornei adulta no período da ditadura, uma época horrível que não se tinha acesso às informações. Não existiam programas, filmes, novelas, documentários abordando os direitos dos homossexuais. Aliás homossexuais, quando apareciam, eram de forma caricata, para o escárnio do público. Se para homossexuais eram assim,  transexuais e travestis era algo que a gente sabia que existia em algum lugar, mas não se falava. Não lembro mesmo do termo "transexual" pronunciado por alguém até meus vinte anos de idade. Só sabia que existia transexualidade, porque uma vez vi uma pequena matéria sobre a cirurgia de redesignação sexual feita pela tenista americana Renée Richards em 1975, época em que eu tinha 13 anos de idade. Assim que li, sabia que aquilo era o que queria fazer, rasguei a minúscula matéria de uma revista e guardei comigo durante anos, sempre pensando naquilo.

Segui minha vida numa extrema infelicidade, tentei me hormonizar na adolescência, mas usei os hormônios errados, porque não havia como se informar a respeito. Na fase adulta precisei encontrar emprego e por isso desisti da transformação do corpo, porque se hoje ainda é dificílimo encontrar emprego sendo trans, nos anos 80 era impossível mesmo.

Dos meus 20 aos 27 anos de idade foi só infelicidade extrema por rejeitar meu corpo. Uma fase de  vida mergulhada em muita bebida e outras drogas, ficava sóbria para trabalhar, e em alguns períodos nem isso.

Depois de passar em vários concursos públicos acabei optando pelo Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro. Dali sabia que ninguém poderia me demitir e comecei a minha transformação, que não foi nada fácil. Isso era início dos anos 90. Se até hoje não encontrei nenhuma trans trabalhando no TJ do Rio, naquela época não se falava em direitos para transexuais,  sofri discriminações totalmente declaradas, as pessoas falavam na minha cara mesmo, isso vinha de juiz e de funcionários. Sentia-me numa selva atacada por animais o tempo todo. Mesmo assim consegui fazer minha cirurgia e trocar minha documentação dentro desse cenário. Hoje em dia consegui o respeito das pessoas de lá, são outros tempos também.

Em algumas situações fui pioneira na questão trans. Fui a primeira a ser atendida no serviço para transexuais do Hospital Moncorvo Filho. No dia que fui, ouvi muita piada e uma enfermeira disse: "- Agora atendem viados aqui?".  Nessa época, o máximo que você podia fazer era um "barraco" e foi o que fiz.

Fui a segunda, no Rio de Janeiro, a mudar de nome e sexo no registro de nascimento. Na época alguns jornais me procuraram para fazer matéria, até dei uma entrevista para um por telefone.

No Tribunal de Justiça, fui a responsável pelo sistema de informática ter que mudar o programa para permitir a alteração de sexo, coisa que não foi prevista por eles. Tive que esperar um tempo até que eles ajustassem, para finalmente conseguir mudar meu sexo lá.

Tudo isso foi legal de conseguir, tenho orgulho da minha trajetória, mas acho que trocaria isso por nascer vinte anos depois do que nasci... rsrs. Certamente minha transformação teria sido mais cedo. Hoje vejo o início de uma melhora para as pessoas trans e quando enfim percebo isso, se soma mais um preconceito, o da mulher mais velha. Uma que nasceu mulher já sofre discriminação por ir ficando mais velha, para uma trans fica um pouco mais complicado. Talvez seja "mimimi" da minha parte, mas  queria fazer um post sobre isso e fiz, foi um desabafo.

2 comentários:

  1. Por pessoas como você existirem e lutarem para viver seu sonho/desejo/história de verdade, sem ficar na sombra é que hoje é que de 20 anos para cá a sociedade é menos pavorosa com pessoas trans com homossexuais. Sua tragetória de vida é uma fabula da vida real, sempre acho que gostaria de ter seu livro impresso na minha estante porque olha... que história!!!

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