quinta-feira, 5 de maio de 2016

Os três momentos difíceis da minha cirurgia genital...



Fiz minha cirurgia de transgenitalização em maio de 2001. A decisão foi fácil porque já tinha decidido por ela desde que me entendo por gente. Mas viajar para outro estado (São Paulo), sozinha, para me operar, sem que minha família soubesse, foi algo difícil. Enfim, enfrentei e fiz, tive a ajuda de algumas pessoas não muito íntimas, mas que foram muito boas comigo e se tornaram amigas. As dores que senti no pós-operatório foram horríveis, fiquei muito fraca, acho que pela perda de sangue no ato cirúrgico. Foi bem difícil voltar tão debilitada para o Rio de Janeiro e ter ainda que enfrentar toda a minha família que não sabia que tinha operado. Acho que, talvez, tenha sido a fase mais difícil da minha vida e tive muitas.

O médico que me operou em 2001, não tinha lá muita experiência. Naquela época as trans não faziam a cirurgia com tanta frequência como se operam hoje. Os resultados foram bem insatisfatórios, a aparência ficou bem estranha, sem contar o tanto de pele que o médico deixou, que parecia dois sacos escrotais mesmo. Minha insatisfação sempre ficou em relação à aparência e nunca quanto a funcionalidade.  Três meses depois da primeira cirurgia tive meu primeiro orgasmo e eles continuaram normais,  nessa parte nenhuma reclamação.

Fui tentar um retoque no final de 2001 com outro médico, mas ele só retirou mesmo o excesso de pele, e nada mais foi consertado. Fiquei bem insatisfeita e novamente cheia de dores fortes. De lá pra cá resolvi que não tentaria um novo retoque a menos que fosse no estado que moro e com um médico que confiasse. Isso só aconteceu muitos anos depois, agora em 2015. Encontrei um médico competente, profissional, extremamente humano e atencioso. Resolvi operar com ele.

Mas minha busca por esse médico começou em 2014, quando tive um enorme sangramento depois de uma relação sexual. Depois vim a descobrir que a minha uretra tinha se descolado, o que passou a me causar dores fortes que me incomodavam muito. Por estar com essas dores e o retoque que precisava fazer, resolvi encarar uma nova cirurgia, mesmo morrendo de medo da dor do pós-operatório.

Agora em 05 de março de 2016, depois de várias consultas com esse médico, entrei na sala de cirurgia para minha terceira cirurgia. Das três foi a que correu melhor. Depois que acordei todos da equipe disseram que tinha sido um sucesso. E também saí da sala de cirurgia sem dor, devido às medicações pesadas que me deram.

Passei a noite internada, no dia seguinte o médico disse que teria que voltar para a casa com a sonda e ficar quinze dias com ela. Que coisa difícil é lidar com sonda, para fazer qualquer coisa ela te incomoda e, aliado a isso, aquela velha dor horrível voltou como na primeira e segunda cirurgia. É uma dor que parece uma faca em brasa te cortando. Foram longos 20 dias de dor muito forte, que nem analgésicos fortes passava, depois disso ela foi amenizando aos poucos. Hoje, dois meses depois da cirurgia, sinto dor para sentar somente. Ficando claro que a intensidade da dor varia muito de trans para trans. Umas quase não sentem dores no pós, já em outras, como eu, elas vem com força total.

Aí me pergunto se valeu a pena todo esse sacrifício. Confesso que, em todas as cirurgias, quando as dores do pós vinham forte, chegava a me arrepender por um momento de ter feito, mas depois que a dor passa a sensação que fica é que valeu sim, totalmente valeu!! Com essa terceira cirurgia a aparência ficou 10 vezes melhor. O médico consertou os erros da primeira cirurgia e hoje posso dizer que tenho uma vagina. Algumas meninas já na primeira cirurgia ficam totalmente satisfeitas com o resultado. Precisei de três cirurgias, mas já ouvi relatos de meninas que chegaram a fazer mais de dez. Também você tem que saber a hora de parar de buscar a perfeição total; perfeição, muitas vezes, nem as vaginas feitas pela natureza tem.

Resolvi fazer esse relato para esclarecer a questão para as trans que um dia venham a ler esse texto e quem sabe ajudá-las a se decidir pela cirurgia, ou não.

sábado, 16 de abril de 2016

Transexual madura...

Acho que esse tema não é  "mimimi", é só mesmo uma reflexão, ou um desabafo puro mesmo. Na verdade me orgulho de ter enfrentado a sociedade numa época em que as coisas eram bem mais difíceis do que são hoje para transexuais. Mas ao mesmo tempo teria gostado bastante de ter nascido mais tarde um pouco, uns vinte anos depois do que nasci. Não teria sido fácil, porque até hoje ainda não é para as pessoas transexuais, mas gostaria de passar a juventude numa época com maior visibilidade trans.

Lembro de quando era criança, existia uma transgênero na rua onde morava. Ela era totalmente impedida de sair de dia, porque as crianças jogavam pedras nela, era um horror, e por talvez intuir o que eu passaria, achava aquilo errado. Os pais ficavam no portão de casa, rindo, sem fazer nada. A trans ficava  bastante constrangida e é óbvio que se sentia magoada, humilhada e etc. Aquilo era normal na década de 70, geralmente agiam assim sem se contestar.

Cresci e me tornei adulta no período da ditadura, uma época horrível que não se tinha acesso às informações. Não existiam programas, filmes, novelas, documentários abordando os direitos dos homossexuais. Aliás homossexuais, quando apareciam, eram de forma caricata, para o escárnio do público. Se para homossexuais eram assim,  transexuais e travestis era algo que a gente sabia que existia em algum lugar, mas não se falava. Não lembro mesmo do termo "transexual" pronunciado por alguém até meus vinte anos de idade. Só sabia que existia transexualidade, porque uma vez vi uma pequena matéria sobre a cirurgia de redesignação sexual feita pela tenista americana Renée Richards em 1975, época em que eu tinha 13 anos de idade. Assim que li, sabia que aquilo era o que queria fazer, rasguei a minúscula matéria de uma revista e guardei comigo durante anos, sempre pensando naquilo.

Segui minha vida numa extrema infelicidade, tentei me hormonizar na adolescência, mas usei os hormônios errados, porque não havia como se informar a respeito. Na fase adulta precisei encontrar emprego e por isso desisti da transformação do corpo, porque se hoje ainda é dificílimo encontrar emprego sendo trans, nos anos 80 era impossível mesmo.

Dos meus 20 aos 27 anos de idade foi só infelicidade extrema por rejeitar meu corpo. Uma fase de  vida mergulhada em muita bebida e outras drogas, ficava sóbria para trabalhar, e em alguns períodos nem isso.

Depois de passar em vários concursos públicos acabei optando pelo Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro. Dali sabia que ninguém poderia me demitir e comecei a minha transformação, que não foi nada fácil. Isso era início dos anos 90. Se até hoje não encontrei nenhuma trans trabalhando no TJ do Rio, naquela época não se falava em direitos para transexuais,  sofri discriminações totalmente declaradas, as pessoas falavam na minha cara mesmo, isso vinha de juiz e de funcionários. Sentia-me numa selva atacada por animais o tempo todo. Mesmo assim consegui fazer minha cirurgia e trocar minha documentação dentro desse cenário. Hoje em dia consegui o respeito das pessoas de lá, são outros tempos também.

Em algumas situações fui pioneira na questão trans. Fui a primeira a ser atendida no serviço para transexuais do Hospital Moncorvo Filho. No dia que fui, ouvi muita piada e uma enfermeira disse: "- Agora atendem viados aqui?".  Nessa época, o máximo que você podia fazer era um "barraco" e foi o que fiz.

Fui a segunda, no Rio de Janeiro, a mudar de nome e sexo no registro de nascimento. Na época alguns jornais me procuraram para fazer matéria, até dei uma entrevista para um por telefone.

No Tribunal de Justiça, fui a responsável pelo sistema de informática ter que mudar o programa para permitir a alteração de sexo, coisa que não foi prevista por eles. Tive que esperar um tempo até que eles ajustassem, para finalmente conseguir mudar meu sexo lá.

Tudo isso foi legal de conseguir, tenho orgulho da minha trajetória, mas acho que trocaria isso por nascer vinte anos depois do que nasci... rsrs. Certamente minha transformação teria sido mais cedo. Hoje vejo o início de uma melhora para as pessoas trans e quando enfim percebo isso, se soma mais um preconceito, o da mulher mais velha. Uma que nasceu mulher já sofre discriminação por ir ficando mais velha, para uma trans fica um pouco mais complicado. Talvez seja "mimimi" da minha parte, mas  queria fazer um post sobre isso e fiz, foi um desabafo.